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domingo, agosto 29, 2010


CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA - LÚCIO CARDOSO

 



*Helena Sut

“Que são os fatos de que nos lembramos, senão a consciência de uma fugitiva luz pairando oculta sobre a verdade das coisas?”
Lúcio Cardoso

Inicio a leitura do romance de Lúcio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada, como se estivesse entre brumas de uma madrugada de inverno. A morte da protagonista logo no primeiro capítulo, retratada no diário de André, seu filho e amante, é a revelação das realidades mais perversas, vestidas num luto desbotado de incesto, abandono e loucura.

Uma narrativa incomum, fragmentada entre os diários, confissões e testemunhos que costuram com maestria a história dos Meneses, centrada na presença de uma mulher desconhecida... Nina é apresentada no olhar dos outros e permanece com muitos mistérios a serem desvendados pelo leitor. É uma mulher do Rio de Janeiro com um passado suspeito e gostos extravagantes que se deixa enganar pela pseudo-riqueza de Valdo Meneses. Quando chega à chácara no sul de Minas Gerais, depara-se com uma família decadente e uma casa em ruínas. Além da pobreza material, existe a miséria das almas, a solidão e a perversão escondida sob o desgastado telhado.

Nina se revolta com o engodo, mas compreende que a partir daquele momento é uma refém da casa, mais um destroço... Logo firma um pacto com Timóteo, o Meneses homossexual, aprisionado em seu quarto e em sua loucura, vestido com farrapos de roupas femininas e com ricas jóias de família, para atingir a vital libertação com a destruição dos falsos alicerces da família. Timóteo é o brilho enterrado junto aos espectros de quem perdeu a capacidade de se identificar distante do nome da família, a valorização dos esquecimentos consentidos, a memória emoldurada em algum lugar do cômodo fechado.
                               
A indução ao suicídio de Valdo Meneses, o adultério, o suicídio do jardineiro e o nascimento do filho de Nina no Rio de Janeiro, distante dos seios ressequidos da casa, marcam a ruptura do tempo e as arestas de sua destruição.

O retorno da protagonista à chácara dos Meneses, após quinze anos de ausência, abrirá a ferida que não cicatrizará e espelhará com nitidez o assassinato da casa com a indução/consumação do suicídio de todos os seus habitantes. A doença contagiosa que todos percebem fortalece os infernos pessoais e resseca a possibilidade de renovação em uma nova estação. Uma morte vaticinada no desejo de um velório ornado por violetas.

Timóteo é um personagem ímpar. É impossível defini-lo no universo vazio dos Meneses. Representa o que as famílias tentam esconder em seu corpo monstruoso, o que gritam os grandes silêncios na lucidez de suas percepções encarceradas numa alma demente, as rachaduras que condenam a construção nos primeiros alicerces... Suas falas traçam a realidade da família presa aos escombros: “É esta a única liberdade que possuímos integral: a de sermos monstros para nós mesmos.”

Ana, esposa de Demétrio Meneses e cunhada de Nina, é a narração das intenções da protagonista, um olhar sempre escondido acompanhando a vida pulsar na beleza do corpo de Nina com revelações assustadoras para quem está condenada a ser uma sombra dentro da metafórica casa. Uma personalidade que cresce no enredo, compreende a vida (morte) nas presenças e ausências dos demais personagens, amarga os interditos e sobrevive a todos para, num final miserável, confessar os pecados e morrer sem perdão.

A agonia de Nina, sua alma libertária presa a um corpo carcomido pelo câncer, é a ramificação da metástase que condena a casa e contagia seus habitantes com a degenerescência da propriedade produtiva transformada em um cemitério de mortos-vivos.

No velório, observamos as máscaras de todos os personagens diante de um mundo de representações. A morte de Nina possibilitou a entrada de Timóteo no centro do cenário e rompeu de modo radical com as falsas realidades que norteavam o vazio da família Menezes.

O depoimento de Valdo Menezes descerra o significado da aparição de Timóteo: “Sua entrada poderia ser extraordinária, mas poderia muito bem significar apenas a entrada de um homem doente. Descendo, vestido naqueles trajes mais do que impróprios, cometia um insulto, e um insulto que atingia todo mundo reunido naquela sala. Os homens suportam uma certa dose de grotesco, mas até o momento em que se sentem implicados nele. De pé, parado diante daquela gente, Timóteo era como a própria caricatura do mundo que representavam – um ser de comédia, mas terrível e sereno.”

Violetas... As flores marcam as estações dos personagens, os enganos, a vida na realização do amor no canteiro de um homem jovem, as tantas mortes, a ressurreição possível na imortalidade dos genes e a prisão a que estão condenados os homens resignados. Timóteo grita o seu desespero quanto percebe no filho de Nina o semblante do jardineiro morto: “Deus, Nina, é como um canteiro de violetas cuja estação não passa nunca... Deus é uma vastidão sem termo de entendimento, de perdão e de beleza.”

Amanheço com o desfecho do romance. Algo definitivamente mudou e percebo o dia com mais claridade. As palavras de Timóteo reverberam: “É preciso nos concentrarmos, é preciso retirar de tudo sua dose máxima de interesse e veemência. E se nada me habita, se sou apenas um fantasma dos outros...” A leitura de Crônica da Casa Assassinada abre janelas, devassa minha intimidade com uma interpretação profunda das paixões humanas e renova o ar das estações anteriores.

Lúcio Cardoso deu vida a um texto absoluto e cabe a cada leitor consagrá-lo com a imortalidade de uma grande obra literária.


[*Helena Sut é escritora e cronista, autora dos livros Sonhos e Cicatrizes (narrativa bidimensional onde o Eu se teatraliza para abrigar o Outro), Beatriz Navegante e Confissões de uma Barriga, Todas as ovelhas são pardas (texto teatral), e Afinetes de Lapela. Acredita que a literatura é a única forma de costurar suas percepções e vivências – uma colcha de retalhos que muitas vezes não conforta, mas é a própria construção do significado no mundo.]

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domingo, junho 27, 2010


A literatura sob o olhar feminino


                                                                                     Adelto Gonçalves (*)
                                               I
         O mundo quando observado pelas mulheres é visto por outra janela. Acostumado a ler livros de Ficção e História escritos predominantemente por homens, o leitor (de ambos os sexos) nem sempre percebe essa alteridade e suas diferenças. Por isso, pensar criticamente em termos de gênero os textos de ficção brasileira publicados nas últimas décadas tem sido o trabalho a que se propõe o Centro de Estudos em Literatura Brasileira da Universidade de Brasília (UnB), coordenado pela professora Regina Dalcastagnè. O resultado das pesquisas e reflexões que o Centro tem proporcionado acaba de sair no livro Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2010), organizado pela professora Regina Dalcastagnè, em colaboração com a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal, reunindo textos de pesquisadoras de diferentes universidades brasileiras.
         Como lembra a professora Regina Dalcastagnè, quando se fala em mulher, é preciso, antes de tudo, lembrar que a condição feminina é sempre plural. Há, por exemplo, uma distância ciclópica quando se lê textos sobre o feminismo marcadamente branco, europeu e de classe média, influenciado pela filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), e as narrativas de Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista negra de Moçambique. Até porque, se é correto entender que as mulheres formam um grupo social específico, as experiências e trajetórias sociais de cada uma constituem universos distintos.
         Por razões que são explicadas pelas contingências sociais de cada nação, as brasileiras nunca se fizeram representar tanto quanto deveriam na Literatura do século XX, embora o Brasil tenha tido a sua primeira romancista negra ainda no século XIX com a maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), uma honrosa exceção num mundo predominantemente machista e preconceituoso, ainda que as elites brasileiras nunca tenham sido tão brancas quanto faziam (e fazem) questão de aparentar. E tenha hoje outra notável romancista afro-descendente, Conceição Evaristo, autora de Ponciá Vicêncio. De qualquer modo, a maioria das mulheres que se destacaram na área sempre foi constituída por brancas e de classe média.
                                               II
         Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Literatura Brasileira da UnB, que leva o título de “Mapeamento de personagens do romance brasileiro: anos 1970, anos 1990”, executada entre 2004 e 2006, procurou fazer um “recenseamento” de autores(as) e personagens com o objetivo de mostrar como a mulher tem sido representada na literatura brasileira contemporânea. Os números constam do ensaio “Representações restritas: a mulher no romance brasileiro contemporâneo”, de Regina Dalcastagnè, abarcando 389 romances produzidos ao longo de dois períodos de 15 anos cada. E mostram que as mulheres, se conseguiram um espaço próprio na literatura brasileira, esse espaço ainda é flagrantemente minoritário.
         A partir do acervo das principais editoras de cada época – Civilização Brasileira e José Olympio para o período de 1965-1979 e Companhia das Letras, Record e Rocco para 1990-2004 –, o levantamento constatou que o romance brasileiro é escrito majoritariamente por homens (72,7% dos autores) e sobre homens (62,1% das personagens são do sexo masculino, proporção que sobe para 71,1% quando são isolados os protagonistas). Como observa Regina Dascaltagnè, além de serem minoritárias nos romances, as mulheres têm menos acesso à “voz” – isto é, à posição de narradoras – e ocupam menos as posições de maior importância.
         Quando são isoladas as obras escritas por mulheres, mostra o estudo, 52% das personagens são do sexo feminino, bem como 64,1% dos protagonistas e 76,6% dos narradores. Para os autores homens, os números não passam de 32,1% de personagens femininas, com 13,8% dos protagonistas e 16,2% dos narradores. “Fica claro que a menor presença das mulheres entre os produtores se reflete na menor visibilidade do sexo feminino nas obras produzidas”, diz a autora.  Além disso, a personagem do romance brasileiro contemporâneo também é branca (79,8%), heterossexual (81%) e rica ou de classe média (82,9%).
         Para a autora, apesar de toda a evolução da condição feminina, a literatura – ou, ao menos, o romance – continua a ser uma atividade predominantemente masculina, embora não seja possível dizer se as mulheres escrevem menos ou têm menos acesso às editoras mais importantes (ou ambas as possibilidades).  Ainda de acordo com o levantamento, os(as) escritores(as) brasileiros(as) são, principalmente, jornalistas, professores universitários, roteiristas e tradutores. Ou seja, há quase um monopólio de profissionais vinculados ao universo do controle do discurso. Por último, desses autores(as), mais da metade está concentrada no Rio de Janeiro e São Paulo. Na imensa maioria, são homens brancos de classe média.
         Como observa Regina Dascastagnè, por mais solidário que seja às mulheres, um escritor homem não vai nunca vivenciar para transmitir o que significa o temor da agressão física tão presente nos lares brasileiros, da mesma maneira que um branco, por mais solidário que se mostre, nunca será capaz de avaliar o que sente um negro ao ser discriminado em seu ambiente de trabalho como também nunca vai entender a revolta de um deficiente físico que chega a um local de votação e tem de se sujeitar a ser carregado no colo escada acima até a urna para depositar seu voto.
                                               III
         Com base nesses resultados, é de suma importância o trabalho que vem sendo realizado por autoras ainda jovens e que começam a ganhar seu espaço nas livrarias brasileiras e, obviamente, na biblioteca e no imaginário do leitor brasileiro. É o que mostra a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal no ensaio “O gênero em construção nos romances de cinco escritoras brasileiras contemporâneas”, ao discutir o trabalho de autoras que já conquistaram seu espaço nas principais editoras do País: Stella Florence e Adriana Lisboa, na Rocco, Lívia Garcia-Roza e Cíntia Moscovich, na Record, e Elvira Vigna, na Companhia das Letras
         Stella Florence pratica uma literatura de entretenimento, o que não significa que seja superficial. Seus livros de contos (Por que os homens não cortam as unhas dos pés?, Hoje acordei gorda e Ele me trocou por uma porca chauvinista) e romances (Ciúme, chulé e um apelido ridículo e O diabo que te carregue!) , cujos títulos carregam um apelo bem-humorado, são escritos na linguagem da autoajuda, sugerindo mais uma conversa com o(a) leitor(a), que lembra o estilo de revistas femininas, como salienta Virgínia Leal.  Adriana Lisboa em seu romance Sinfonia em branco também traz para a literatura questões pouco exploradas como a história de duas irmãs marcadas pelo abuso sexual de uma delas na infância pelo pai. 
         Lívia Garcia-Roza mostra um modelo de sociedade opressivo, mas sem uma alternativa viável, em que os casais e a família vivem sob o mesmo teto, mas quase não se comunicam entre si. Seus livros tratam de temas pouco comuns em romances, como aborto e menstruação. Cíntia Moscovich, já publicada em Portugal, a exemplo de Moacyr Scliar, recupera histórias de seu grupo étnico, a comunidade judaica de Porto Alegre. Em seus romances Duas iguais e Por que sou gorda, mamãe?, há temas pouco explorados ainda na literatura brasileira, como relações lésbicas.
         Já Elvira Vigna procura resgatar um gênero literário policial, o do romance negro, mas o faz  em forma de paródia. Seus textos são sempre em primeira pessoa, mas suas protagonistas seriam as criminosas e não o detetive que desvenda os crimes. Por isso, são fontes poucos “confiáveis” porque o leitor nunca fica sabendo se diz a “verdade” ou dissimula os fatos narrados. Mas é exatamente aqui que reside a sua originalidade.
         Como observa a pesquisadora, as cinco autoras, cada uma a sua maneira, dialogam em suas obras com questões relevantes da agenda feminista como o corpo e a sexualidade, a violência, os direitos sexuais e reprodutivos e outros. Ainda que recusem o rótulo de “feministas” e não avancem na maré pós-feminista – que, pelo menos no Brasil, um país ainda arcaico sob muitos aspectos, é uma realidade distante –, com suas obras contribuem de maneira significativa para a criação de uma “consciência feminista” entre o público-leitor, “a partir da uma identificação com suas protagonistas em confronto com o poder patriarcal”.
                                               IV
         Regina Dalcastgnè é professora titular de Literatura da UnB, editora da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de autora de A garganta das coisas: movimentos(s) de Avalovara de Osman Lins e Entre fronteiras e cercado de armadilhas: problemas de representação na narrativa brasileira contemporânea, entre outros livros. Para a Editora Horizonte, preparou o livro Ver e imaginar o outro: alteridade, desigualdade, violência na literatura brasileira contemporânea (2008).
         Virgínia Maria Vasconcelos Leal também é doutora pela UnB e pesquisadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Participou dos livros Formas e dilemas na representação da mulher na literatura brasileira contemporânea, Alguma poesia: ensaios sobre literatura brasileira contemporânea e Imagens & diversidade sexual: estudos da homocultura.
         Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea traz ainda textos das pesquisadoras Adelaide Calhman de Miranda, doutoranda na UnB, Bruna Paiva de Lucena, mestranda na UnB, Cíntia Schwantes, professora da UnB, Cláudia de Lima Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Edma Cristina de Góis, jornalista e doutoranda na UnB, Ermelinda Maria Araújo Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco, Norma Telles, professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo, Rita Terezinha Schmidt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sandra Regina Goulart Almeida, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Simone Pereira Schmidt, professora da UFSC, Susana Moreira de Lima Bigio, da UnB, e Tânia Regina Oliveira Ramos, da UFSC.
[*Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br]
 
DESLOCAMENTOS DE GÊNERO NA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÃNEA, de Regina Dalcastagnè e Virgínia Maria Vasconcelos Leal (org.). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 239 págs., 2010, R$ 36,00. E-mail: contato@editorahorizonte.com.br Site: www.editorahorizonte.com.br
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sábado, junho 26, 2010


Novas perspectivas de leitura
                                                                                                                                             Adelto Gonçalves (*)
                                                           I
            Textos literários provocam reações diferentes em diferentes leitores e, por essa possibilidade de “diferença”, para a teoria da recepção, esses textos sempre são dinâmicos, gerando um movimento complexo que se desdobra no tempo. Essa frase de Pedro Lyra, retirada por Robson Coelho Tinoco de Literatura e Ideologia (Petrópolis, Vozes, 1995), explica bem não só o que é a chamada estética da recepção como define na medida certa aquilo que se pode chamar de mistério da linguagem, ou seja, a capacidade que têm certos textos de atravessar os anos e os séculos, sempre apreciados por gerações de leitores.
            Em 2006, quando este pesquisador foi convidado a escrever o prefácio para um livro de Contos, de Machado de Assis (1839-1908), que seria publicado em edição russo-portuguesa pela Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou, o que lhe veio à mente foi que os brasileiros nunca deixaram de ler Dostoievski (1821-1881), muitas vezes, em traduções de segunda mão, do francês para o português.
            E mais importante: sempre o entenderam, pois imaginavam o que teria sido a São Petersburgo oitocentista e as personagens que nela se movimentavam. Sendo assim, não haveria por que temer a recepção de Machado de Assis na Rússia porque, afinal, o leitor russo, de alguma maneira, haveria de imaginar o que teria sido o Rio de Janeiro oitocentista e entender muito bem as personagens machadianas que nela se movimentaram.
            É que o romance como o conto sempre existe em três planos, como certa vez, num final de tarde de janeiro de 1990, no Café Samoa, em Barcelona, expôs a este pesquisador o escritor catalão Eduardo Mendoza: como o autor o imagina antes de escrevê-lo; depois, quando está escrito; e, por fim, quando o leitor abre o livro. Ao acabar de ler o romance (ou o conto), o leitor termina também de reescrevê-lo à sua maneira porque, afinal, imagina coisas que não conhece nem nunca poderá conhecê-las porque perdidas no tempo, tal como a São Petersburgo dostoievskiana ou o Rio de Janeiro machadiano.
            Esses episódios (re)imaginados, de acordo com a capacidade de cada leitor, que são o produto final do processo criativo iniciado pelo escritor, constituem o mistério da linguagem, um estranho fenômeno há muito estudado, mas nunca suficientemente desvendado, apesar de todo o esforço da chamada teoria da recepção ou “estética da recepção”, a mais jovem e mais importante manifestação da hermenêutica, oriunda da Alemanha.                                         
                                                           II
            A que vêm estas reflexões e lembranças? Vêm a propósito do livro Leitor real e teoria da recepção: travessias contemporâneas (Vinhedo-SP, Editora Horizonte, 2010), de Robson Coelho Tinoco, em que o autor, num primeiro momento, reúne estudiosos renomados na esfera da estética da recepção para, em seguida, apresentar análises críticas de obras de Machado de Assis, Aluísio Azevedo (1857-1913), Guimarães Rosa (1908-1967), Gustave Flaubert (1821-1880), Charles Baudelaire (1821-1867) e Murilo Mendes (1901-1975). E o faz com muito fôlego e criticidade ao analisar obras literárias cujos enredos nem sempre saltam facilmente aos olhos do leitor, como observa Ezequiel Theodoro da Silva na apresentação.
            Num dos ensaios da primeira parte do livro, “A semiologia da teoria da recepção no destino (atual) do texto moderno”, Tinoco observa que a leitura (de um texto jornalístico, de um romance, de um poema etc.), que não é uma atividade meramente cumulativa, não se dá por meio de movimento linear progressivo.
            “Lê-se simultaneamente imaginando e inferindo, recordando e prevendo, tentando, conscientemente ou não, apreender todos os níveis textuais de informação – poética, gramatical, lexical, semântica”, diz, lembrando que na análise de Wolfgang Iser, integrante da Escola de Constança e, ao lado de Hans Robert Jauss (1921-1997), o maior expoente da estética da recepção, lêem-se também as “estratégias textuais” a partir dos “repertórios” das experiências de vida e cultura de cada leitor. “Assim”, explica Tinoco, “é natural que nossas inferências iniciais, acerca do que vai sendo lido, gerem um conjunto de referências para a interpretação e compreensão do que vem a seguir, que bem pode demonstrar, como incorretos, as inferências e entendimentos originais”.
            Na conclusão desse ensaio, Tinoco vai mais além, ao observar que a teoria da recepção estabelece a troca (recepção) de informações (entre autor e leitor), “concluindo um sentido duplo de análise – o da obra manifestando ao mundo externo sua mensagem literária e o das experiências de mundo e vida, próprias de cada pessoa (leitor), compondo os grupos sociais de uma determinada sociedade”.
                                                           III
            Especialista na obra de Murilo Mendes e autor de Murilo Mendes: poesia de liberdade em pânico (Brasília, Editora da Universidade de Brasília-UnB, 2007), Tinoco incluiu neste livro o ensaio “Murilo Mendes: a recepção aplicada a um estudo poético. A construção de uma poética inovadora”, que constitui um resumo crítico da análise desenvolvida em seu livro.
            Nesse ensaio, lembra que o modernismo romântico de Murilo Mendes libera uma carga efetiva de emoção-em-criação abrigada nesses dois polos em que a poesia se instala: escritor e leitor. “Nesse sentido, as emoções representadas por sua visão literária não são, em relação a esses dois pólos, iguais às experimentadas na vida cotidiana, marcada por necessidades imediatistas. São emoções diluídas em um tipo de tranqüila recordação que são liberadas pela leitura/recepção atenta em análises produtivas. Na verdade, são percepções sentimentais de emoções”, observa.
                                                           IV
            À luz da estética da recepção, Tinoco faz ainda uma excepcional análise do conto “O Espelho: esboço de uma nova teoria da alma humana”, de Machado de Assis, no ensaio “Leitura e recepção dos heterônimos (possíveis) em Machado de Assis: a modernidade nos personagens machadianos”, em que defende a idéia de que existem “muitos Machados”, mortos-vivos e eternos, assumindo sua forma e espaço nas ruas, nas alcovas, nas repartições, nos templos, nas festas, nos manicômios, como observou Luís Viana Filho em A vida de Machado de Assis (Porto, Lello & Irmão, 1984).
            Como se sabe, em “O Espelho”, encontramos uma síntese perfeita da visão de mundo machadiana, conto em que o alferes Jacobina expõe a um grupo de cavalheiros a sua concepção sobre a natureza da alma, defendendo que a alma interior seria formada por emoções e sentimentos mais íntimos que não ousamos dizer a ninguém, enquanto a alma exterior representaria o modo como interiorizamos a imagem que os outros fazem de nós.
            A partir daí, Tinoco analisa Machado de Assis em três de suas manifestações, ainda que haja outras que podem ser consideradas e redescobertas, como diz: o homem, o autor e o narrador.  Essas três manifestações, no entender do ensaísta, podem ser vistas também como “heterônimos” do senhor Joaquim Maria Machado de Assis, assim como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são de Fernando Pessoa (1888-1935). Mas, ao contrário de Pessoa, que conferiu local, data de nascimento e vida própria aos seus heterônimos, os de Machado de Assis “tiveram vida dependente um do ouro, com a particularidade de representar, cada um deles, um outro olhar para lugares diferentes de onde os outros olhavam”.
            Na verdade, Quincas Borba, Brás Cubas e dom Casmurro podem ser vistos mais como “semi-heterônimos”, assim como o Bernardo Soares, do Livro do Desassossego, é considerado um “semi-heterônimo” pessoano, tal como o definiu Jorge de Sena (1919-1978) em Fernando Pessoa & Cia.Heterónima: estudos coligidos 1940-1978 (Lisboa, Edições 70, 1984). Ou seja: um personagem que assume todas as características, principalmente a idiossincrasias, de seu criador.
            Seja como for, para concordar com as conclusões de Tinoco – ou abrir polêmica com elas –, o leitor-receptor terá de ler (e reler) este livro com atenção. Sairá dessa leitura – ou “travessia” – bem diferente, engrandecido e apto a entender como a estética da recepção pode oferecer visões interpretativas que abrem novas perspectivas de leitura. É essa a função de todo bom crítico. Como Tinoco mostra muito bem neste livro.
                                                           V
            Robson Coelho Tinoco, nascido em Guaratinguetá-SP, em 1960, é mestre em Língua Portuguesa (PUC-SP) e doutor em Literatura Brasileira pela UnB, onde é professor desde 1996 no Departamento de Teoria Literária. Em 2009, iniciou seu pós-doutoramento em Língua Portuguesa, pesquisando práticas e metodologias de leitura literária no ensino médio de São Paulo e do Distrito Federal.
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LEITOR REAL E TEORIA DA RECEPÇÃO: TRAVESSIAS CONTEMPORÂNEAS, de Robson Coelho Tinoco. Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 184 págs., 2010, R$ 34,00. E-mail: contato@editorahorizonte.com.br Site: www.editorahorizonte.com.br

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[* Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).]
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sábado, maio 29, 2010

Resenha Literária . JOÃOZITO - A Infância de João Guimarães Rosa


“Joãozito, de sua infância muito revive nas páginas de João Guimarães Rosa, de imaginação criativa, mas lembrando o real das coisas. O pé pisando a Terra Natal.”Vicente Guimarães


O título é o portal para a poética viagem rumo à infância do grande escritor João Guimarães Rosa. Escrito após o seu encantamento por seu tio, Vicente Guimarães, autor de diversos livros infantis, Joãozito é a imortalidade, a busca do reencontro com o sobrinho, apenas dois anos mais novo, com quem compartilhou as percepções inaugurais e as conquistas de suas carreiras literárias. O menino Joãozito cresceu, formou-se em medicina e ganhou o mundo com os feitos e a coragem reconhecidos em sua carreira diplomática e com a inovação no estilo, sintaxe e construção de uma linguagem original que revolucionou a literatura brasileira.

[Joãozito e Guimarães]

Joãozito ilumina as vivências primaveris do menino míope, guloso, supersticioso, apaixonado pelos livros e insetos, e nos apresenta os diversos tipos populares “com farturas e mesuras” que participaram de sua infância em Cordisburgo ou foram fortalecidos em sua imaginação com os relatos dos mais velhos. Mané Galinha, José Amaro Salamaro, Seo Emílio (o cego), Felão, Mãitina e outros tantos são apresentados e demonstram a empatia do menino que os percebeu e amadureceu como marcantes personagens de seus enredos entranhados e gestados desde os primeiros anos.

O menino Joãozito se destacava por sua inteligência e memória incomuns. Desde pequeno gostava de ficar sozinho, brincar de inventar estórias e de estudar geografia. Com dez anos já lia os clássicos autores franceses e durante toda a vida foi seduzido pelas línguas estrangeiras, falava vários idiomas, inclusive o esperanto, língua de Zamenhof.

Não há como ler Joãozito sem lembrar os personagens Minguilim e Riobaldo, sem reviver a emoção com a leitura de Primeiras Estórias, Sagarana, Ave, Palavra e do romance Grande Sertão: Veredas. A revelação da infância do escritor ilumina a releitura necessária de sua obra literária.

Vicente Guimarães se aventura na infância de Joãozito com as inovações lingüísticas do grande escritor João Guimarães Rosa. “Legou-nos o grande escritor e notável estilista uma escola de aperfeiçoamento da Língua Portuguesa, para a sua ampliação e maiores recursos. Seu estilo e suas inovações aí estão para serem estudados e seguidos. Procurei fazê-lo: ousadia e tanto!”

É sempre arriscado tentar descobrir o homem ante a existência do mito, mas, no caso de Joãozito, o desabrochar do menino é uma viagem mágica aos sertões que serviram de continente para o despertar das palavras do encantado João Guimarães Rosa.
[A casa dos Guimarães em Cordisburgo]


Helena Sut*
[*Helena Sut é escritora e cronista, autora dos livros Sonhos e Cicatrizes (narrativa bidimensional onde o Eu se teatraliza para abrigar o Outro), Beatriz Navegante e Confissões de uma Barriga, Todas as ovelhas são pardas (texto teatral), e Afinetes de Lapela. Acredita que a literatura é a única forma de costurar suas percepções e vivências – uma colcha de retalhos que muitas vezes não conforta, mas é a própria construção do significado no mundo.]


JOÃOZITO - A Infância de João Guimarães Rosa
Editora: PANDA BOOKS

sexta-feira, maio 28, 2010

“Nocturno. O Romance de Chopin”, por Helena Vasconcelos *

Chopin - Centenário



“Nocturno. O Romance de Chopin”, Cristina Carvalho, Ed. Sextante, Lisboa, 2009/2010
Música, Paixão, Fogo e Cinzas

A figura extraordinária do músico e compositor Fréderic Chopin – cujo bicentenário de nascimento se comemora este ano – está indissoluvelmente ligado a um movimento artístico, social e político que deu pelo nome de Romantismo.
É claro que o termo romantismo e o adjectivo “romântico” tiveram um tal impacto na mente e na vida das pessoas que acabaram por se banalizar de uma forma quase escandalosa. Hoje em dia, oferecer flores ou levar a namorada/mulher/ amante a jantar à luz de velas, são considerados actos “românticos” e a música de Chopin é tocada amiúde em momentos bastante fúteis e vulgares, desmerecendo a arrebatadora qualidade da mesma e os complexos estados de alma que convoca. E se muitos advogam um regresso ao estado romântico puro, nesta nossa época considerada demasiado materialista e consumista, a verdade é que será difícil reviver esses tempos em que a paixão estava ligada à morte, em que as doenças ceifavam vidas muito cedo – o que tinha como consequência o aproveitamento obsessivo de cada momento – e o máximo da experiência erótica se misturava com a decadência física, principalmente provocada pela tuberculose.

Terá sido tudo isto que interessou a escritora portuguesa Cristina Carvalho. Fascinada com a personalidade e a obra de Chopin, passou longas horas a compilar informação – enquanto ouvia sem cessar as suas composições – e escreveu “Nocturno. O Romance de Chopin” que marca a efeméride e nos traz uma narrativa ficcionada mas com referências preciosas, incluindo cartas e outras fontes, totalmente fiéis à verdade histórica. É por essa razão que, para falar de Chopin, agora e sempre, é preciso pegar em “Nocturno” e seguir a corrente líquida e musical das suas palavras.
Cristina Carvalho começa por descrever os últimos dias de vida do compositor, assunto a que volta no final do livro. Chopin agoniza no esplêndido apartamento do número 12 Place Vendôme, em Paris. Sofre no corpo e na alma, está fraco e débil, tosse horrivelmente e tem hemorragias. O cansaço deixa-o sem forças e sente a falta da música, único alívio para as suas dores. A dedicada irmã Ludwika faz tudo para o acarinhar mas o fim está próximo. A sua fama atrai mais e mais gente e nos corredores, onde se sussurram preces e se trocam suspiros, há um corrupio de gente importante, de marquesas e duques, de cantoras e actrizes. A condessa Potocka, “A Grande Pecadora” e a cantora Jenny Lind procuram suavizar o sofrimento de Frederic que, no seu leito de enfermo, relembra a sua curta e intensa vida. Cristina Carvalho descreve com emoção essa viagem ao passado, ao ritmo das melodias encantatórias que o compositor imortalizou.
Chopin nasceu em Varsóvia em 1810 de mãe polaca e pai francês e desenvolveu as suas aptidões artísticas nesta mesma cidade durante os anos 20. Tinha dezasseis anos quando entrou para o Conservatório de Varsóvia onde teve como professor Józef Antoni Elsner que o encorajou a prosseguir uma carreira de virtuoso do piano e desenvolveu nele um interesse apaixonado pela cultura e música polacas tradicionais. Para completar a sua educação viajou até Berlim e Viena, deu os seus primeiros concertos mas não ficou particularmente impressionado com estas cidades. De regresso a Varsóvia, apaixonou-se perdidamente por outra estudante do Conservatório, Contantia Gladkowska, um sentimento que se pensa ter-lhe inspirado o magnífico andamento em F menor do Concerto para Piano nº 2.
Fréderic compôs ainda algumas obras para piano e orquestra bem como baladas de raízes folclóricas mas quando chegou a Paris, em Setembro de 1831, resolveu rejeitar decididamente a via mais convencional e lançou-se em composições cada vez mais complexas e sofisticadas. Enquanto a sua Pátria se debatia com tumultos e guerra civil, aventurou-se numa mudança de estilo e a composição das Mazurkas, Opus 6 e 7, dos Nocturnos, Opus 9, e dos Estudos, Opus 10 marcaram uma evolução técnica e estilística importante.
Paris era, naquele tempo, o lugar para onde convergiam todos os grandes artistas e Chopin foi recebido como um deles. Estabeleceu amizades com Berlioz, Bellini, Cherubini, Meyerbeer e Lizst enquanto o grande Mendelssohn o aplaudia veementemente, e passou a movimentar-se nos circuitos artísticos, privando de perto com Eugène Delacroix e Alfred de Vigny. No entanto, a sua carreira só começou realmente a dar frutos quando chamou a atenção da família Rothschild que o colocou sobre a sua protecção, financiando-o de forma a que pudesse dedicar-se inteiramente à composição. No plano sentimental, Chopin procurava o amor ardente que ele sabia transfigurar tão bem em melodias encantatórias. As mulheres eram fatalmente atraídas para aquele jovem frágil, sensível e genial. Marie, filha do Conde Wodzinski, foi uma delas mas a relação entre ambos, iniciada em 1835, não teve a aprovação dos pais da jovem. Maria era muito nova e Chopin era famoso mas pobre e tinha uma saúde frágil.( Fréderic guardou todas as cartas de Maria juntamente com as da própria mãe num envelope no qual escreveu as palavras polcas “Moja bieda” ou seja, “ O meu pesar”).
Os traços deste desgosto ficaram inscritos para a posteridade na famosa “Valsa do Adeus”, Opus 69, nº 1, escrita em Dresden e o compositor procurou alívio para as suas dores na pessoa de outra musa, a condessa polaca Delfina Potocka para quem compôs a famosa “Valsa Minute”.
Em Julho de 1837, o compositor visitou a Inglaterra principalmente com o intuito de obter um diagnóstico preciso sobre a sua condição física mas o veredicto foi terrível: estava tuberculoso e regressou a Paris com a devastadora notícia. Através de Liszt e da sua amante, a Condessa Marie d’Agoult tinha conhecido Aurore Amandine Dupin, que era conhecida como Georges Sand, escritora e patrona de artistas, famosa pelo seu pensamento e modos liberais e pelos seus dotes de sedutora. No início Chopin afirmou que tinha sentido repulsa por Sand mas esta rapidamente o conquistou. Por alturas do Verão de 1838, a relação amorosa entre ambos era já do domínio público. Os dois iniciaram um romance tempestuoso que durou dez anos. 
Cristina Carvalho, no já citado “Nocturno. O Romance de Chopin” não mostra grande simpatia por Maman Sand. Caprichosa e determinada, a escritora não dava descanso ao compositor, instando-o a trabalhar e envolvendo-o numa vida turbulenta que lhe prejudicava ainda mais a saúde. Critina Carvalho descreve com minucioso e assustador detalhe a viagem que os dois amantes empreenderam no Inverno (de 8 de Novembro de 1838 a 13 de Fevereiro de 1839) a Maiorca, na companhia dos dois filhos de Sand, Maurice e Solange, com o propósito de melhorar a saúde do compositor. O tempo estava muito mau, com chuva e frio, as autoridades alfandegárias não libertavam o piano Pleyel de Fréderic e as acomodações eram difíceis, uma vez que ninguém queria receber os amantes. Finalmente conseguiram alojamento no antigo convento em Valldemossa onde se gelava e as condições de sanidade eram péssimas. Chopin sofria horrivelmente e Sand, finalmente convencida, levou-o de volta a Marselha e, de seguida, para a sua casa de campo em Nohant onde finalmente ele pode compor em paz, enquanto a amante tratava dele com desvelos de mãe. No entanto, o idílio não tardou a deteriorar-se à medida que a saúde de Chopin piorava. Sand começou a dar sinais de impaciência, chamava a Chopin “ um filho a mais”, uma “criança”, “um doce anjo” e sentia-se presa num papel que ela era mais de enfermeira do que de companheira amorosa. Em 1847, a escritora publicou “Lucrezia Floriani”, onde as principais personagens eram decalcadas dela própria e de Chopin com alusões pouco abonatórias em relação ao músico. Esse facto contribuiu para o afastamento entre ambos e embora amigos comuns, como a cantora Pauline Viardot – que manteve a sua amizade por Chopin até à morte – tenham tentado uma reconciliação, esta nunca se deu e Sand parece ter-se esquecido completamente do compositor. Mais tarde, o Conde Grzymala que privara estreitamente com o grupo formado em torno de Sand daria voz à opinião de que a escritora teria “envenenado a vida do músico, e contribuíra para a encurtar”.
Com a deflagrar da Revolução de 1848, Chopin partiu para Inglaterra onde se esperava que partisse em digressão. Em Londres privou com Jenny Lind, a famosa soprano e abastada filantropa e reencontrou a sua antiga aluna e admiradora Jane Stirling que o acolheu no seu castelo na Escócia por o músico não estar em condições de tocar. São vários os historiadores que afirmam que Jane propôs casamento a Chopin mas que este recusou devido à sua pouca saúde. Jane não terá sido sua amante – nada o faz indicar – mas tornou-se a amiga fiel e, segundo Cristina Carvalho, a “mulher que mais o amou em silêncio”. Cada vez mais fraco e doente, acabou por ter de se confinar ao leito e, logo que pode voltou para Paris onde acabou por morrer em grande sofrimento, a 17 de Outubro de 1849.
Chopin foi um virtuoso do piano e muitas das suas obras foram compostas para serem executadas a solo. Prelúdios, Estudos, Valsas, Impromptus (Improvisos) e Scherzos, tal como as já mencionadas Danças Polacas, como as Mazurcas e as Polonesas fazem parte do corpus da sua produção, tal como as Baladas, um estilo livre e sonhador, uma espécie de corrente da consciência passada para música, que ele desenvolveu. A sua música é considerada extremamente inovadora, baseada em melodias que se entrechocam, cadências com tempos demorados e ocasionais incursões no mais puro cromatismo, entre outras experimentações, que tiveram como efeito o desbravar de um território que importantes compositores – como Liszt, Wagner, Débussy, Tchaikovsky, Rachmaninov entre outros – acabaram por seguir.
Sim, Chopin foi, talvez, o maior “romântico” de todos os tempos, como artista e como homem. Amou, escreveu música, lutou contra a doença e o declínio físico, experimentou as dores da rejeição, o fim das paixões e as agruras da doença num tempo de mudança, de tumultos e revoluções. A sua música, apaixonada e vibrante celebra a paixão, o amor e a vida ao mesmo tempo que recorda o abismo da morte e do esquecimento. Ao contrário do que muitos pensam, a sonoridade das suas obras não é sentimental mas sim sentida, violenta e simultaneamente melancólica. Frederic sabia que a existência na terra é curta, que os amores passam, que o fim chega sempre demasiado cedo e que só a arte perdura. 

Helena Vasconcelos*
[*Helena Vasconcelos nasceu em Lisboa, Portugal. Foi para a Índia com quatro anos e, desde então, nunca mais parou de viajar. Formada pela Faculdade de Letras; em Filologia Germânica pela Universidade Clássica Lisboa e em História de Arte na Escola Arco, Lisboa, tem como ocupações principais escrever, ler e viajar. É atualmente, e desde o primeiro número, colaboradora permanente da revista ELLE portuguesa. Colabora com o "Jornal Público" desde a sua fundação – suplemento cultural Y - tendo também trabalhado no jornal "O Independente". Promove ações de Formação na área de apoio e divulgação à Leitura em Bibliotecas Municipais, orientando Comunidades de Leitores em Bibliotecas e, desde há cinco anos, na Culturgest, em Lisboa. É promotora e dinamizadora de “Os Clássicos na Gulbenkian”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; organizou os ciclos de conferências da Feira do Livro de Lisboa de 2004 e de 2005 (com Paula Moura Pinheiro). Escreveu sobre Arte em vários jornais, catálogos e revistas da especialidade, dos quais se destacam Neue Kunst in Europa (Alemanha), Juliet (Itália). Publicou um livro de contos em 1988 “Não Há Horas para Nada” (Ed. Relógio D’Água) que recebeu o Prêmio Revelação do Centro Nacional de Cultura. Publicou “Mário Eloy. O Pintor do Desassossego”, Ed. Caminho. Contribuiu com “short stories” para várias revistas portuguesas e estrangeiras. Criou e dirige a revista on-line "Storm-Magazine. O lugar da cultura" - www.storm-magazine.com.]

quarta-feira, maio 26, 2010

Resenha Literária- A TERCEIRA MARGEM DO RIO – GUIMARÃES ROSA


O homem manda construir uma canoa, despede-se da família sem palavra alguma e parte, tornando-se rio... Rio abaixo, rio acima, o pai, desfigurado de tempo, transforma-se em paisagem enquanto, à margem, o filho acompanha sua trajetória e tenta definir os porquês.


A rotina incorpora o mistério. A família se adapta à nova realidade, cria novas margens para o curso cotidiano, nascimentos e mortes marcam o tempo, e o que os outros falam preenche o pensamento da família. A culpa permeia os sobreviventes, mas todos se calam diante do silêncio da terceira margem.


O homem e o rio... Todos fingem não perceber a loucura - a lucidez é rendida pela culpa. Por que o homem abandonou a margem para ser meio de rio? Por que o filho abandonou a travessia para ser margem?


Sem destino, não há mais origem. A vida desmorona em frágeis margens. O homem, o filho, o rio... Paisagens coisificadas no mundo, homens lançados à margem de qualquer possibilidade.


A terceira margem do rio é um conto primoroso de Guimarães Rosa, onde o autor aborda a loucura e o abandono com a poesia e a linguagem que caracterizam o grande escritor. Trata metaforicamente a origem, o destino e a travessia, a necessidade de viver as águas, ora violentas, ora calmas, do rio com o objetivo de chegar ao lugar almejado.


O conto termina quando, num ato desesperado, o filho se oferece para ficar na canoa no lugar do pai e foge com a aproximação do mesmo. A iminência de se tornar rio e o primeiro gesto do pai depois de tantos anos o preenchem de medo. O filho pede perdão pelo "procedimento desatinado", mas o pai desapareceu para sempre no rio.


"Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio adentro - o rio."


Em outras obras de Guimarães Rosa, encontramos as margens e os rios. No romance Grande sertão - Veredas, o protagonista Riobaldo fala sobre as margens do rio e como não percebemos a travessia por estarmos tão preenchidos de margens - de origens e destinos. A vida aporta às margens e não incorpora as vivências do rio.


"Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! - só estava era entretido nas idéias dos lugares de saída e de chegada."


Homens que abandonam os ideais e ficam a cargo do rio da rotina; outros que enlouquecem e perdem o sentido, e ainda os que apenas preferem constituir calados à terceira margem, tornando-se indiferentes ao mundo. Não há responsabilidades ou objetivos, são apenas margens da margem num rio indiferente.


São tantos os rios passíveis de travessia... E também tantas as margens... Reticente, a linguagem demonstra a possibilidade de navegação dos grandes rios. O recomeço, a recriação de cada margem de origem e a transformação do destino em um novo porto inicial. Não são apenas as palavras de Guimarães Rosa que margeiam os grandes rios, são as ações, as diversas etapas de sua vida que demonstram a grandeza dos grandes navegadores.


Em 1952, Guimarães Rosa retornou aos seus "gerais" quando participou junto com um grupo de vaqueiros por uma viagem pelo sertão - longa viagem às raízes deste ilustre brasileiro que criou na literatura uma nova linguagem, imortalizando os homens que permaneceram à margem da história brasileira.


Com tantas veredas conquistadas na aridez dos sertões cotidianos, Guimarães Rosa é a pluralidade das margens, o curso dos rios ou a viagem aos grandes sertões individuais como inspiração para tantas novas crônicas. Aventurar-se na travessia é dar margem ao desbravamento de nossas possibilidades, escrevendo as lutas e realizações no centro do manuscrito.


Helena Sut*

[*Helena Sut é escritora e cronista, autora dos livros Sonhos e Cicatrizes (narrativa bidimensional onde o Eu se teatraliza para abrigar o Outro), Beatriz Navegante e Confissões de uma Barriga, Todas as ovelhas são pardas (texto teatral), e Afinetes de Lapela. Acredita que a literatura é a única forma de costurar suas percepções e vivências – uma colcha de retalhos que muitas vezes não conforta, mas é a própria construção do significado no mundo.]
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